O Direito do Trabalho e as transformações do Estado Contemporâneo: o sistema econômico neocapitalista segundo García-Pelayo.
Porém, por Estado Social devemos entender não apenas uma configuração histórica concreta, mas também um conceito claro e distinto frente a outras estruturas estatais. Por isso, precisamos considerá-lo como um sistema democraticamente organizado, ou seja, como um sistema onde a sociedade não só participa passivamente como receptora de bens e serviços. Trata-se de um sistema em que, através de suas organizações, a sociedade é parte ativa na formulação da vontade geral do Estado, bem como na construção das políticas distributivas e de outras prestações estatais. Dito de outro modo, qualquer que seja o conteúdo do social, sua atualização precisa vincular-se a um processo democrático, mais complexo, certamente, do que o da simples democracia política, uma vez que ele deve estender-se a outras dimensões.
[...] é um regime político fundado na soberania popular, com eleições livres e governo da maioria, bem como em poder limitado, Estado de direito e respeito aos direitos fundamentais de todos, aí incluído o mínimo existencial. Sem terem as suas necessidades vitais satisfeitas, as pessoas não têm condições de ser verdadeiramente livres e iguais. Há também um elemento emocional, humanístico, na democracia, que é o sentimento de pertencimento, de participação efetiva em um projeto coletivo de autogoverno, em que todos e cada um merecem consideração e respeito.
O neocapitalismo, diferentemente, baseia-se no suposto keynesiano de que, para aumentar a produção, não é necessário diminuir o consumo das massas trabalhadoras. Pelo contrário, a ideia é aumentá-lo, pois a produção é determinada pela demanda efetiva, esta, por sua vez, pela quantidade de pessoas empregadas, pelo nível dos salários e pela expansão das prestações sociais. Em resumo, o crescimento do consumo é pressuposto da existência do neocapitalismo. Já não se trata de explorar a massa dos assalariados, mas a massa de consumidores através do próprio consumo. O objetivo é incitar os consumidores, através dos meios de propaganda, a que consumam mais, a fim de que seja absorvida a maior produção possível.
Com efeito, assim como o crescimento do alto capitalismo assumiu os tremendos custos sociais e políticos da exploração dos trabalhadores e da radicalização e polarização da luta de classes, também o crescimento neocapitalista apresenta elevados custos existenciais, ao dar origem a fenômenos como: o distanciamento das origens gerado pela frequente mudança de lugar de trabalho; a obsolescência dos conhecimentos profissionais, que, a partir de certa idade, produz uma incômoda sensação de frustração; o agravamento do conflito entre gerações que viveram em contextos econômicos e culturais diferentes; a crescente dependência do indivíduo em relação a sistemas sobre os quais ele não tem o menor controle; a degradação das cidades; suportar mão-de-obra estrangeira em conflito cultural com patrões dominantes no país anfitrião, que gera fenômenos correlativos de discriminação, racismo etc.; os fenômenos de protesto anômico, a poluição do ambiente, a diminuição dos recursos naturais não-renováveis etc.
Os princípios por trás do Estado Social não buscam primordialmente distribuir cada vez mais — o que talvez seja desejável, mas nem sempre realizável — nem um crescimento indiscriminado do bem-estar. Seu objetivo é distribuir melhor e assegurar a vigência de um sistema econômico que, pressuposta a escassez, possa administrá-la com eficácia e justiça, antepondo os interesses da totalidade da sociedade nacional sobre quaisquer outros, ainda que para isso seja necessário realizar mudanças profundas em sua estrutura.
Ao analisar sob o ponto de vista das relações empregatícias, o Estado Social e Democrático de Direito, merece se fazer presente na economia e na sociedade para garantir um mínimo existencial de dignidade para o trabalhador diante do sistema econômico (neo) capitalista.
Sem a presença do Estado na sociedade industrial e pós-industrial ocorre um certo descompasso na economia e quem paga a conta é o trabalhador hipossuficiente, que não tem poder de barganha para negociar seus direitos trabalhistas na relação empregatícia.
O Estado Social e Democrático de Direito não pode perder de vista sua finalidade, que nada mais é que a manutenção da ordem e a pacificação social, diante dos interesses e conflitos do sistema econômico social vigente.
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